Entre alíquotas e latidos
Dia desses em um treinamento – sem querer (ou querendo inconscientemente) comentei que logo ao me aposentar de quase 30 anos em tax eu iria iniciar a carreira de dog walker. Na minha imaginação, seria a transição de carreira ideal. Mais passeios, mais ar livre e muitos, muitos cachorros.
E por que esses pensamentos? É que, mais do que o volume de alterações na legislação ou as planilhas que parecem ganhar vida própria, o que tem me inquietado mesmo é o que vejo nos olhos dos alunos em sala de aula: ansiedade.
Aquela ansiedade silenciosa, disfarçada de perguntas rápidas ou de silêncios longos demais. Eles entram na sala já com a expressão de quem está atrasado – mesmo quando estão no horário. Estão exaustos de tanto tentar entender um sistema que muda enquanto eles ainda estão tentando aprender o anterior.
É como se cada nova aula não fosse apenas sobre tributos, mas também sobre como manter a sanidade em meio a um tabuleiro que troca as regras no meio do jogo. E ali estou eu, tentando explicar que a mudança é necessária, que faz parte – enquanto por dentro também estou tentando não surtar com a 47ª atualização da mesma sigla.
Tem dias em que eu me pego olhando para o horizonte e pensando: e se, no lugar de interpretar a 38ª versão do substitutivo da reforma tributária, eu estivesse simplesmente passeando com um cachorro chamado “Origem” e outro chamado “Destino”? Talvez o cenário Brasil já não mudasse tanto, mas minha frequência cardíaca agradeceria.
Não me entenda mal – amo minha profissão. Amo tanto que já expliquei a diferença entre cumulatividade e não cumulatividade com recurso a desenhos, memes e até analogias com reality shows. Porém, depois de anos navegando no oceano revolto das normas fiscais, comecei a considerar uma utopia pessoal: viver num mundo onde o maior desafio do dia seja desviar do cocô na calçada, e não da insegurança jurídica.
Há quem sonhe com estabilidade. Eu tenho sonhado com silêncio – aquele silêncio que só existe quando nenhum grupo de trabalho está debatendo alíquota média ponderada do novo sistema. Tenho sonhado também com a liberdade de caminhar sem calcular créditos presumidos ou pensar se o contribuinte substituído deveria mesmo ter sido inscrito no cadastro do IBS.
E nesse devaneio quase poético, percebi que talvez o mundo precise mesmo de mais profissionais que saibam descomplicar o tributário, mas que também saibam a hora de respirar, rir de si mesmos e, se necessário, trocar o salto pelo tênis – e a reunião por um bom passeio com doguinhos.
Não estou aposentando os códigos – ainda. Mas estou autorizando oficialmente a mim mesma (e quem sabe a você também) a considerar outras formas de existir: mais leves, mais presentes, e quem sabe, mais cheias de pets e afeto do que de planilhas.
Porque no fim das contas, entre o caos fiscal e a simplicidade canina, acho que todos nós só queremos uma coisa: que nos deixem em paz para cumprir bem nosso dever – e, quem sabe, buscar um pouco de paz no processo.
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